"REPARTIR COM OS DEMAIS POVOS O QUE TEMOS RECEBIDO COM FARTURA É O QUE DEUS ESPERA DE CADA UM, ESPECIALMENTE SE CONSIDERARMOS QUE ELE NOS ABENÇOA PARA QUE OUTROS TAMBÉM SEJAM ABENÇOADOS POR MEIO DAS BÊNÇÃOS QUE TEMOS ALCANÇADOS."

domingo, 19 de dezembro de 2010

NA PELE DE UM DALIT - 2ª PARTE


... Meu editor, cético, argumenta que os aborígines indianos pos¬suem traços mongolóides ou negróides, e que eu nunca conseguiria parecer com um deles. Está enganado. Vi aborígines do Deccan em uma reportagem sobre soldados aventureiros na televisão. Não informaram o nome de sua tribo, mas seus rostos pareciam arianos e devem existir tinturas para escurecer a cor da minha pele e do meu cabelo. Aliás, não pretendo parecer exatamente um aborígine, mas ser aceito como tal pelos indianos de Benares. Não deve ser difícil. Com certeza nunca viram um Munda verdadeiro. Da mesma maneira, a maioria dos franceses não reconheceria um verdadeiro taitiano, ignorando que dobra os "r", que pode ser polinésio, bran¬co ou chinês. Não sabem com que se parece, mas ouviram falar dele, sua existência é plausível, e não é da natureza humana duvi¬dar a priori da palavra de um desconhecido que reivindica uma identidade modesta.
Convenci meu editor.

12 de março de 1992

Aprendo hindi há um mês. Sigo o método inglês autodidata Teach Yourself Hindi (Aprenda o hindi sozinho).
Primeiro memorizei os caracteres devanágari (escrita usada para o sânscrito, o hindi e outras línguas indo-arianas). Levei uma semana recopiando esse alfabeto quatro horas por dia. É composto de 11 vogais, 40 consoantes simples e mais de 200 consoantes com¬postas.
Isso ocorre em todas as línguas sem alfabeto romano. Para o leigo, sua escrita se assemelha ao excremento de moscas ou à cali¬grafia, aos hieróglifos, à pintura. É bonita, e o hindi nos faz pensar em linhas de pequenas aletrias que se enroscam e se combinam em arabescos. Isso me faz lembrar de quando aprendia chinês e corea¬no, e achava a escrita muito bonita. Depois, repentinamente, sabe¬mos decifrar a sujidade de moscas e a escrita perde o mistério. Não vemos mais as relações geométricas, nem a arquitetura dos caracte¬res, mas somente o som e o sentido. E passamos a construir uma palavra, uma frase, uma idéia.
Atualmente, trabalho o método quatro horas diárias. Aprendo a gramática, o vocabulário e também a pronúncia, escutando a fita que o acompanha. Quatro horas por dia, sem falta. A regularidade é necessária para a assimilação eficaz de uma língua.
O que mais me surpreende no estudo - e, sem dúvida, é uma tolice - é que os indianos, mesmo com palavras diferentes, pen¬sam como nós. Os sons são diferentes, mas as grandes idéias sobre a vida cotidiana coincidem. No entanto, há particularidades diver¬tidas. Em hindi, ontem e amanhã se traduzem pela mesma palavra, kal, isto é, "um dia além" - para trás ou para a frente. Revela a indolência legendária dos indianos? Gosto desse tipo de indagação.

18 de maio

Parto em dois meses.
Tenho medo. Doenças, fome, miséria. Onde vou dormir? Em que calçada? O que vou comer? Nunca fiquei com o estômago vazio. Para enchê-lo, deverei fuçar as latas de lixo, os despejos de sujeiras que decoram as encruzilhadas das cidades indianas?
Quem serão meus amigos? Esta noite jantarei confortavelmen¬te na França, e, no mesmo instante, em Benares, com a diferença do fuso horário, aqueles de quem me tornarei amigo, irmão, deve¬rão estar procurando um canto onde passar a noite...
De uma viagem turística de cinco meses na Índia, em 1990-¬1991, guardo a lembrança de uma sociedade de indigência extre¬ma, onde lavar a cabeça com um pouco de xampu é um luxo, onde o óleo comestível é vendido por centilitro, o açúcar por hectograma e cigarros por unidade. Na Índia, 40% da população vivem abaixo do limiar da pobreza. Os pobres são realmente pobres. Só possuem o corpo. Não ganham salário mínimo, nem são beneficiados com o RMI, que permite comprar carne, legumes e frutas todos os dias, pagar um aluguel com água corrente, eletricidade, geladeira e televisão.
Isso não significa que os indianos pobres vivam sem sentir nenhuma felicidade. Assim espero. Nessa aventura, farei novos amigos, descobrirei prazeres desconhecidos. Sem dúvida. Quero me convencer disso, esquecer as favelas e a imundície. Devo domar meu medo. Essa metamorfose enriquecerá meu conhecimento sobre os outros e sobre mim mesmo. Eu me fortalecerei.
Estarei sendo ingênuo acreditando na virtude transformadora de uma aventura?

2 de junho

Bernard Levy-Klotz é um amigo dermatologista. É um médico aberto e competente. Posso lhe perguntar como escurecer a cor de minha pele; sei que não propalará meu projeto.
Não o vejo há três anos, mas ele não mudou. De 35 a 40 anos, baixinho, cabelos castanhos e sempre com um sorriso no canto dos lábios. Ele me aperta a mão e me introduz no consultório. Não inicia a consulta discutindo minha saúde ou a meteorologia. Ele diz:
- Está partindo para a China ou chegando de lá?
- Não, desta vez, vou para a Índia.
Serei sucinto. Eu lhe explico que tenho a intenção de me transformar em indiano. Mas minha pele é muito clara. Conhece algum método para escurecê-la? Existem medicamentos?
Ele reflete e consulta suas fichas. Depois, liga para um colega e pergunta que método utilizaria para escurecer a pele. O outro deve interrogá-lo sobre minha enfermidade, pois ele responde, lançan¬do-me um sorriso, que esse paciente é um caso especial, que não pode explicar. Trocam nomes de substâncias e, em dois minutos, examinam o problema. Não existem muitas soluções.
- Bem, poderemos tatuá-lo, mas o resultado será definitivo. Sem dúvida, deve estar querendo algo reversível. Prescrevo meto¬xipsoraleno. É uma substância que aumenta a quantidade de mela¬nina, o pigmento marrom que cobre a pele. Tomará um a três comprimidos por dia, antes de se expor ao sol.
- É eficaz?
- Bronzeia. Na clínica, com lâmpadas ultravioleta, nós o utilizamos para tratar de pessoas com vitiligo.
O vitiligo é uma doença que provoca a despigmentação da pele e deixa grandes placas brancas no rosto e no corpo. Suspeitava que o metoxipsoraleno era destinado aos aventureiros com minha índole.
- Se tomar um ou dois comprimidos e se expuser à luz do dia, irá se bronzear como se tivesse passado um fim de semana na neve.
- É perigoso para a pele?
- É cancerígeno.
Tranquilizador! Ele é mais preciso:
- É cancerígeno depois de muito tempo. Mas você só o tomará durante algumas semanas. Não há riscos. Deverá usar óculos escuros durante a exposição ao sol, para proteger os olhos...
- Quantos dias precisarei para me parecer com um indiano?
- Não sei. É a primeira vez que me confronto com uma experiência assim. Você devia se testar. Comece por um comprimido, depois dois, em seguida três, em cada sessão de exposição. Como sentirá o sol, prescreverei a pomada Biafine, e se a queimadura for mais grave, passará um creme de cortisona. Além disso, para obter o tom chocolate da pele dos indianos, talvez seja preciso se untar com uma solução de nitrato de prata. Sob a ação da luz, bronzeará sua pele. É como um filme para foto. Deixamos de utilizá-la para tratar de manchas causadas por despigmentação porque os sais de prata provocam um matiz muito escuro e fosco. Mas para se tornar um indiano, poderá ser útil. Só com o metoxipsoraleno, o bronzeado seria um dourado à moda européia. Deveria também tentar uma emulsão autobronzeadora como complemento.
- E a cor durará quantos dias?
- A epiderme se renova a cada três semanas. Durará esse tempo, eu acho...
Ele me pergunta que tipo de indiano pretendo imitar.
Eu temia essa pergunta. Deliberadamente, não lhe conto que me disfarçarei de intocável e mendigo. Divulgá-lo daria a imagem de um jornalista superficial que busca o sensacionalismo. E não quero me tornar um indiano e arriscar minha vida para realizar uma façanha, uma proeza. Essa aventura é um assunto entre mim e os pobres.
Balbucio qualquer coisa, ele repete a pergunta e confesso a verdade. Ele responde:
- Eu já suspeitava!
Eu também imaginava que ele replicaria assim. A imagem do repórter Tintin, que corre atrás do sensacional fácil, me persegue desde meu livro Dans la peau d'un Chinois. Nunca li uma única revista de Tintin e, se nesse livro eu falo de drogas, prostitutas e meninos de rua, não é para chocar os leitores. Há quem se interes¬se pela poesia da dinastia Tang, pela acupuntura, pela caligrafia, pela Grande Muralha, pelo taijiquan (o boxe chinês). Na China, era o amor que me fascinava, e freqüentei os meninos de rua pelo pra¬zer de sua companhia. Ao retornar a Paris, contei minhas experiên¬cias. É tudo. É verdade que os pássaros com a mesma plumagem voam juntos; isso eu admito, mas não busco o sensacionalismo. Quero apenas conhecer o mundo. Aos 27 anos, visitei os bordéis chineses. Hoje, aos 32, quero me tornar intocável e mendigo. O doutor Levy-Klotz me ouve atentamente. Acrescento que a investigação não pretende se limitar à miserabilidade. Espero não sofrer muito e até mesmo apreciar os prazeres desconhecidos dos intocá¬veis. Se é que existem...

14 de junho

Na semana passada, testei, durante três dias, a emulsão auto¬bronzeadora em meu braço esquerdo. Uma mentira. Nenhuma diferença de pigmentação entre os dois braços.
Ontem e hoje, experimentei o metoxipsoraleno. Tomei um com¬primido e passei a manhã em uma cadeira ao sol, com uma venda sobre os olhos. Isso funciona, pois me bronzeei bem. À tarde, pas¬sei duas vezes a solução de nitrato de prata no braço esquerdo e o expus à luz durante meia hora. O resultado salta aos olhos. Cada camada de nitrato de prata tornou a pele da cor do tabaco, como uma película fina de fuligem, porém com mais cor de ferrugem, e resistente à água e ao sabonete. Em compensação, fiz a tolice de
passar o nitrato sem luvas. Isso fez minha mão direita ficar nojenta: a palma marrom e os dedos e unhas de um amarelo baço, como os de um cara que fumasse 10 maços de cigarros por dia e limpasse motores em uma oficina. Na Índia, para minha metamorfose, me untarei com luvas e, quando for pintar as mãos, será preciso contornar seu interior e as unhas, pois os indianos, assim como os negros, têm as palmas e as unhas claras.
Os indianos têm a pele cor de chocolate, com nuanças que vão do chocolate branco ao chocolate preto, passando pelo chocolate com leite. Há os muito pálidos, principalmente no Norte, e não é indispensável ter a pele escura para passar por um deles. Mas a maior parte é de cor baça, de pele morena. Com o metoxipsoraleno e o nitrato de prata, mais uma tinta preta no cabelo, eu me incorpo¬rarei à massa.
O domínio do hindi também me ajudará. Terminei o estudo, segundo o método inglês, no começo de abril. Depois, li revistas populares e um romance policial: Les Mains de la mort (As mãos da morte). Não é nem de Peter Cheney, nem de Conan Doyle, mas literatura de metrô. É rico em diálogos e expressões correntes, o que devo aprofundar. Conheço todas as estruturas gramaticais e cerca de 2.000 palavras do vocabulário. Quando chegar à Índia, daqui a um mês, quero ser capaz de ler, sem dicionário, um jornal de grande público. Ali, só terei de praticar a língua, adquirir fluên¬cia e velocidade.
Acho que vou conseguir.
Todas as manhãs passo quatro horas traduzindo Les Mains de La mort. Ainda utilizo um dicionário, mas não tropeço mais nas difi¬culdades gramaticais, nem na linguagem coloquial dos diálogos. Eu me deparei com trechos surpreendentes.
Por exemplo, na página 13, um homem explica à amante por que ele odeia a esposa:
“Ela me causa repugnância. Seu corpo é coberto de pelos espes¬sos. Quando os raspa, desabrocham como ganchos e me tiram a pele ao me roçar nela."
“É uma mulher ou um urso?"
“É um gorila! Um gorila!"

Na página 24, a discussão entre duas mulheres jovens, belas e ricas sobre um gigolô:
“E como anda Gautam?"
“É o tipo de cachorro que está sempre pronto a lamber as cadelas, uma atrás da outra."
“Por que ele age assim?"

Na página seguinte, ainda as duas garotas:
“Tara tomou Suman em seus braços e fez amor com ela, como faria com um homem."
Essa literatura, publicada em livro de bolso e destinada ao gran¬de público local, mostra os indianos como pessoas de carne e osso. Nossos semelhantes.
A mesma linguagem, os mesmos vícios. De fato, isso me tran¬qüiliza.

1º. de julho

Esta noite tive um pesadelo. Isso me acontece raramente. Foi horrível e acordei repentinamente, molhado de suor.
Eu morava na Índia. Em Benares. Eu era intocável. Usava sobre o corpo um pano sujo de terra e rasgado. Dormia na rua e comia o que encontrava em um monte de lixo. Era penoso, muito pior do que tinha imaginado. Sentia calor, estava sujo, pegajoso, e crostas amareladas de impetigo cobriam meu rosto. Sofria de úlcera no estômago e de tifo. Ninguém prestava atenção em mim. Não tinha remédios e ia morrer.
Amanhece. Na rua, os pardais cantam e fico feliz por estar vivo, na França, em uma cama com lençóis limpos.
Devo partir em 17 dias. Gostaria de cancelar o projeto, desfazer o contrato com o editor.

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