"REPARTIR COM OS DEMAIS POVOS O QUE TEMOS RECEBIDO COM FARTURA É O QUE DEUS ESPERA DE CADA UM, ESPECIALMENTE SE CONSIDERARMOS QUE ELE NOS ABENÇOA PARA QUE OUTROS TAMBÉM SEJAM ABENÇOADOS POR MEIO DAS BÊNÇÃOS QUE TEMOS ALCANÇADOS."

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

NA PELE DE UM DALIT - 1ª PARTE

A História Real de um Jornalista que Viveu entre os Intocáveis, os Homens mais Discriminados da Índia - Autoria de: Marc Boulet

Acabo de assinar o contrato. Para um escritor, convencer um editor e receber um adiantamento dos direitos autorais é o mesmo que um desempregado encontrar trabalho.
E mais ainda.
Terei o que fazer durante um ano e dinheiro suficiente para viver. Além disso, escreverei um livro que será publicado e que tal¬vez me proporcione riqueza e celebridade. Posso sonhar.
Eu me dispus a me metamorfosear em indiano intocável. Uma velha idéia que não me sai da cabeça há dois ou três anos. O que aconteceria se um francês bem alimentado, criado no conforto da sociedade ocidental, se transformasse repentinamente em um dos seres mais indigentes do planeta: indiano e intocável? Como supor¬taria esse novo tipo de vida? Como veria o mundo? Experimentaria as mesmas alegrias, dores e sensações de antes? Descobriria a Índia, país fabuloso, com seus marajás, caçadas aos tigres em selvas impressionantes, habitadas por papagaios e elefantes, templos barrocos e sábios meditando sobre tábuas com pregos, vacas sagradas, os horríveis leprosos e o mendigo mirrado que morre diante do turista, sobre uma calçada em Calcutá. Tantas imagens de Épinal, visões exóticas que a metamorfose em intocável indiano sem dúvi¬da destruiria.

Em primeiro lugar devo explicar brevemente quem são os into¬cáveis.
Oitenta e três por cento dos indianos são hindus, divididos em duas a três mil castas - grupos hereditários, segregativos e endóga¬mos, muitas vezes ligados a uma profissão, e hierarquizados segun¬do o grau de pureza higiênica e religiosa. Ao mesmo tempo, as cas¬tas se reúnem no sistema global dos quatro varna, ou ordens tradi¬cionais: no alto, os brâmanes, depois os kshatriya, os vaishya e, ao pé da pirâmide, a massa dos shudra. Respectivamente: os sacerdotes, os guerreiros, os comerciantes e os servos, nascidos da boca, dos bra¬ços, das coxas e dos pés de Brahma, deus criador do universo.
As três primeiras ordens eram constituídas, em sua origem, pelos arianos, termo que significa "nobres", em sânscrito. Oriundo das estepes da Ásia Central, esse povo colonizou o Norte da Índia há três ou quatro mil anos. Impôs sua religião, que estabeleceu os fundamentos do hinduísmo. Essas três classes superiores são con¬sideradas nascidas duas vezes, pois os meninos se submetem a uma iniciação ritual que simboliza um segundo nascimento, uma espé¬cie de batismo hindu, no fim do qual a criança usa um janeu. Esse cordão de algodão penderá a tiracolo sobre o ombro esquerdo até sua morte.
Em contraste, os shudra, trabalhadores manuais, de origem supostamente pré-ariana, não podem usar esse cordão sagrado. Saídos dos pés do Criador, são inferiores. Abrangem os leiteiros, barbeiros, pescadores, ferreiros etc. Homens inferiores a serviço das três ordens superiores. Tradicionalmente, se um shudra escu¬tasse os textos sagrados hindus, seria preciso verter chumbo em seus ouvidos; se os recitasse, sua língua deveria ser cortada; se os recordasse, deveria ser desmembrado.
Existem castas ainda "mais inferiores", tão abjetas que não foram geradas pelo Criador. Situam-se fora do sistema dos quatro varna e constituem o lado indiano inútil. São os intocáveis, os chan¬dal, os descendentes dos bastardos míticos gerados na união sexual de um shudra com uma brâmane. O pior dos híbridos, segundo a ideologia hindu, classificado no nível do cachorro e do porco. Na realidade, os intocáveis seriam shudra sujos. Isto é, aborígines con¬vertidos pelos arianos ao hinduísmo, mas cujos costumes e profis¬sões, extremamente degradantes aos olhos dos brâmanes, excluem suas castas do sistema dos varna. Os garis, as lavadeiras, os que transportam os mortos até a sepultura, os sapateiros, os que extraem o sumo das palmeiras são intocáveis. São imundos. O sapa¬teiro esfola os animais mortos, a lavadeira lava a roupa suja, o trans¬portador de defuntos mexe com cadáveres... Suas atividades deixam nódoas impuras permanentes, que sujam aquele que os toca. Vivem em bairros específicos, separados dos outros.
Até mesmo sua sombra pode poluir. Antigamente, era-lhes proi¬bido entrar na cidade de Puna antes das nove horas da manhã e depois das três horas da tarde, pois as sombras de seus corpos, muito longas sob o sol rasante, podiam cair sobre um membro de uma casta superior e sujá-lo. Em Maharashtra, um intocável não podia cuspir na rua porque arriscava poluir aquele que pisasse em seu cuspe, e devia carregar um pote de terra preso ao pescoço para escarrar dentro dele. Se um brâmane cruzasse seu caminho, devia se deitar no chão, para não criar sombra. No Punjab, quando um gari saía à rua, supostamente deveria levar uma vassoura sob o braço para indicar sua casta, e deveria gritar para advertir a população de sua presença poluente. Na costa de Malabar, os que extraíam o sumo das palmeiras eram tão indignos que não podiam usar nem guarda-chuva, nem sapatos, nem joias de ouro.
Isso foi antigamente. Após a independência da Índia, em 1947, a intocabilidade e a discriminação de casta foram abolidas pela Constituição. Atualmente, os intocáveis são chamados pudicamen¬te de "castas repertoriadas" ou "filhos de Deus" - termo gandhia¬no, que os intocáveis consideram condescendente. No papel, todos os templos, lojas, restaurantes, poços, escolas, estradas lhes são acessíveis sem restrições e o Estado lhes reserva cadeiras no Parla¬mento e empregos na administração para elevar sua condição. Com a modernização da sociedade, muitos deixaram de exercer sua ativi¬dade tradicional. São camponeses, operários, alfaiates, comercian¬tes, pequenos funcionários, mas, na realidade, isso não muda em nada sua intangibilidade. Pertencem à casta indigna de seus ances¬trais e continuam a ocupar o patamar mais baixo da escala social.
Os intocáveis somam aproximadamente 130 milhões, ou seja, 15% da população indiana; a eles se acrescentam 65 milhões de aborígines autênticos que vivem na selva e que são igualmente con¬siderados intocáveis, por causa de seus costumes tribais, e conse¬qüentemente primitivos e impuros. Grosso modo, um em quatro indianos é intocável, o que representa uma em 28 pessoas no mundo.
Além disso, essa discriminação, fundamentada em uma impu¬reza imaginária, é indelével, assim como a cor da pele. Um homem não pode mudar de casta durante sua existência presente. Só a reencarnação lhe permite renascer em uma condição melhor ou pior, em função de suas ações passadas, boas ou más. Todos sabem que os corvos são pretos e o mundo é injusto, mas o sistema de cas¬tas - ao contrário do sistema de classes, que recompensa o mérito na vida atual - aprisiona o indivíduo, impedindo qualquer ascen¬são social.
A intangibilidade parece uma discriminação tão monstruosa quanto o racismo e, para estudá-la, conhecer a verdade, devo me tornar um intocável.

Isso é discutível. Se eu fosse razoável, não teria assinado o con¬trato com a editora. Sem trabalho nem qualificação, eu poderia me inserir no RMI. Além disso, quero desempenhar o papel duplo de intocável e de mendigo. De acordo com o Ministério de Assuntos Sociais da Índia, o país possui um milhão e meio de mendigos. A maior parte dos intocáveis não mendiga, e os mendigos provêm de todas as castas. Esse papel duplo me permitiria tocar o fundo da miséria humana.
Minha mulher, Gloire, e meus pais dizem que sou louco de pla¬nejar essa experiência, que posso perder a vida. As imagens de fave¬las, leprosos, mortos e crianças esqueléticas nas calçadas de Calcutá os confundem. Como contradizê-los? Claro que tenho medo de me deparar com essa miséria, mas, em Paris, fico girando em círculos como um peixinho em seu pequeno jarro redondo. Preciso do sol dos trópicos, dos rios gigantescos, das cidades distan¬tes e das selvas exuberantes. Depois de viver Na pele de um chinês, nos anos 80, quero saborear uma nova aventura, existir a cem por hora. Que cada minuto dessa metamorfose fique gravado em minha memória até minha morte.
Refleti bastante sobre o método. Primeiro, aprenderei o hindi, a mais falada das 1.652 línguas arroladas na Índia. Permanecerei seis meses na França, mais três meses de prática na Índia, para dominar a linguagem coloquial e a gíria. Isso deverá bastar. O estu¬do de línguas me atrai. Já conheço seis, entre as quais o albanês, o chinês e o coreano; sou diplomado pela Escola de Línguas Orien¬tais. É evidente que em tão pouco tempo meu hindi nunca será tão perfeito quanto o de um indiano nato.
Eis o meu plano. Serei indiano na planície do Ganges. Sem dúvida em Benares, a Meca dos hindus, no Estado de Uttar Pradesh. Essa província de 140 milhões de habitantes, a mais populosa da União indiana, corresponde à terra do bramanismo. A população fala o hindi e, com 21% de intocáveis, percentagem superior à média nacional, seu sistema de castas ainda é rigoroso, principalmente no leste, isto é, em Benares. Como para Na pele de um chinês me metamorfosearei em membro de uma etnia rara, que possui sua própria língua. Isso justificará minha falta de fluência no hindi. Serei um membro dos Munda, tribo aborígine de 1.000.000 de indivíduos, 80% convertidos ao hinduísmo. Habitam as selvas do Bihar, no sul, a centenas de quilômetros de Benares. Assim, eu me tornarei intocável e reduzirei o risco de encontrar outro membro de minha casta, bastante minoritária, um Munda que talvez me desmascarasse.

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