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sexta-feira, 23 de novembro de 2012

AGUDÁS, UM PEDAÇO DO BRASIL NO BENIN

Eles não falam português, mas quando estão juntos trocam o bonjour (francês é a língua oficial do Benin) por bom dia. Nos dias de festa, cantam músicas em português. Ao receberem convidados em casa, preparam o que chamam de feijoadá ou kousido.


Representando entre 5% e 10% da população do Benin, um minúsculo país da costa ocidental africana, os agudás, descendentes de escravos ou comerciantes baianos que emigraram para o Golfo do Benin no século 18, guardam ainda, com muito orgulho, traços que os ligam ao Brasil, terra de seus ancestrais.

"Nós somos muito orgulhosos por termos a cultura brasileira no Benin. O que guardamos dos nossos antepassados, nós mostramos todos os dias. Nós mantemos os costumes nas roupas, na comida e também no samba, através da burrinha", explica o jornalista agudá Christian de Souza.

Os traços, no entanto, estão ligados ao Brasil colonial. Na dança e na música, tocam burrinha, uma forma arcaica de bumba-meu-boi.

Escrava Isaura


Agudás usam trajes especiais nos dias de festa.

As roupas usadas nas festas parecem tiradas de uma novela ambientada no século 18. Aliás, a novela "Escrava Isaura", transmitida no país, serviu como fonte de atualização do figurino agudá usado em ocasiões especiais, como na missa anual da Irmandade Brasileira de Nosso Senhor do Bonfim.

É que, até então, os descendentes de brasileiros só tinham na memória as roupas usadas por seus avós.

Entre os agudás mais conhecidos no Benin, estão os integrantes da família Souza.

Tudo começou quando Francisco Félix de Souza, um comerciante de escravos de Salvador, se transferiu para o Benin, levando com ele um grupo de escravos libertos.

Souza, que recebeu o título de Chachá, conseguiu grande destaque no comércio de envio de escravos para o Brasil e, devido às suas ligações com o rei da região de Abomé (reino), da qual a cidade de Uidá faz parte, acabou recebendo o título de vice-rei da Uidá, dinastia que os Souza mantêm até hoje.

Chachá VIII

O último descendente do primeiro vice-rei de Uidá foi empossado em 1995, após a morte de Jérôme Anastácio de Souza.

Mitô Honorê Feliciano de Souza, o Chachá 8º, diz que, desde que chegou ao trono, vem tentando aumentar as ligações entre o Brasil e o Benin.

Chachá diz que os agudás torcem pelo Brasil na Copa do Mundo. E, como prova disso, fez questão de vestir sua camisa 11 da seleção e de se enrolar na bandeira brasileira, ritual que cumpre à risca em dias de jogos do Brasil.

De acordo com levantamento feito pelo antropólogo e fotógrafo brasileiro Milton Guran, autor do livro Agudás, os brasileiros do Benin, há cerca de 400 sobrenomes luso-brasileiros hoje em dia no país.

São Silvas, Souzas, Freitas, Domingos, entre outros, vivendo em sua grande maioria no sul do país, em cidades como Porto Novo, Uidá e Cotonou.

Mas, segundo Milton, esse número de descendentes pode ser ainda maior, já que muitas mulheres perdem o sobrenome quando se casam, e os filhos recebem o sobrenome do pai.

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